segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Quando o silêncio acompanha o cortejo

 Quando o silêncio acompanha o cortejo

Há momentos na vida em que o silêncio fala mais alto do que qualquer palavra.


Hoje, ao descer acompanhando o cortejo até o cemitério, meu coração estava pesado. Não apenas pelos passos lentos, mas pelo peso invisível da dor que caminhava ao nosso lado. Diante de nós, um pequeno caixão. Ao lado, um pai desolado, seguindo em silêncio, com o olhar perdido e o coração despedaçado. Uma vida que nasceu e partiu quase no mesmo instante.

Há dores que não deveriam existir. Mas existem. E quando elas chegam, não pedem licença nem explicação.

A perda de um filho não segue a ordem natural da vida. Não faz sentido. Não se organiza em palavras. Apenas dói. Dói fundo, dói calado, dói onde ninguém alcança.

Enquanto caminhava, lembrei-me de Davi. A Bíblia registra um dos textos mais difíceis de ler, justamente porque nos confronta com o mistério da dor e da soberania de Deus. Em 2 Samuel 12, após a morte de seu filho, o texto diz que Davi levantou-se, lavou-se, mudou suas vestes, entrou na casa do Senhor e adorou; depois, voltou para casa e comeu (2 Samuel 12:20).

Esse texto não nos ensina frieza. Não nos ensina indiferença. Ele nos ensina algo muito mais profundo: há dores que não são superadas, mas são carregadas na presença de Deus.

Davi chorou enquanto havia esperança. Jejuou, orou, suplicou. Mas quando a morte chegou, ele compreendeu algo que todos nós, cedo ou tarde, precisamos aprender: a vida continua, mesmo quando o coração permanece ferido. Não porque a dor acabou, mas porque Deus permanece.

A Bíblia nunca romantiza o sofrimento, mas também não o esconde. Ela nos mostra um Deus que entra na dor humana. Em João 11, diante do túmulo de Lázaro, o texto é curto e profundo: “Jesus chorou” (João 11:35). O Filho de Deus não negou as lágrimas, não espiritualizou a dor, não a tratou como fraqueza. Ele chorou. Isso nos ensina que chorar não é falta de fé; é expressão de humanidade diante de um Deus que se importa.

Aquela bebê não conheceu a dureza deste mundo. Não conheceu a violência da vida, nem as marcas do pecado. Cremos que foi acolhida diretamente nos braços do Pai. As palavras de Jesus ecoam como consolo em meio à dor: “Deixai vir a mim os pequeninos, porque dos tais é o Reino dos céus” (Mateus 19:14).

Para os pais, ficou o vazio. Para a família, ficou o silêncio. Para Deus, ficou uma vida guardada em amor.

O salmista nos lembra: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado” (Salmo 34:18).

Perto. Não distante. Não indiferente. Perto do pai que segue o cortejo em silêncio. Perto da mãe que chora longe dos olhares. Perto de todos os que tentam entender o que não tem explicação.

Há momentos em que não perguntamos mais “por quê”, porque sabemos que não haverá resposta imediata. Mas aprendemos a perguntar: em quem descansaremos? E a fé cristã nos conduz a essa certeza: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Salmo 46:1).

O luto não tem prazo. A dor não segue calendário. Mas a presença de Deus é constante. Ele sustenta hoje, sustentará amanhã e caminhará com os que choram até o dia prometido, quando, como afirma a Escritura, Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima (Apocalipse 21:4).

Hoje, o cortejo desceu em silêncio. Mas nossa esperança aponta para cima.

Porque, mesmo quando a vida é breve demais para os nossos braços, ela nunca é pequena demais para o cuidado de Deus.

Diante de dores como essa, não nos resta outra atitude senão nos voltar para o Senhor. É tempo de oração, não de explicações apressadas. Tempo de abraçar, não de discursos longos. Tempo de lembrar que, mesmo quando o coração do pai caminha desolado atrás de um cortejo, Cristo caminha ao lado, sustentando com graça invisível, porém real.

A esperança cristã não nega a dor, mas a atravessa com fé. Olhamos para a cruz e lembramos que Jesus também conheceu o sofrimento, a perda e a morte — e, ainda assim, a ressurreição teve a última palavra.

Que o Espírito Santo console esta família, fortaleça o pai e a mãe, e nos ensine a descansar na certeza de que, em Cristo, nem mesmo a morte é o fim, mas o começo da eternidade com Deus.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Essa Prova Vai Passar: Esperança e Perseverança na Jornada Cristã

 

Essa Prova Vai Passar: Esperança e Perseverança na Jornada Cristã

A vida cristã não é um caminho sem pedras, sem lágrimas ou sem lutas. Jesus foi honesto ao dizer: “No mundo tereis aflições” (João 16:33). O apóstolo Pedro reforça: “Não estranheis a ardente provação que vem sobre vós, como se coisa estranha vos acontecesse” (1 Pedro 4:12). A Bíblia não esconde a realidade da dor, mas nos ensina a enxergá-la à luz da eternidade. A mensagem central é clara: essa prova vai passar.

A dor é real, mas não é eterna. Paulo nos lembra em 2 Coríntios 4:17-18 que a tribulação é “leve e momentânea” quando comparada ao peso eterno de glória que nos aguarda. O salmista declara: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmo 30:5). A noite não é definitiva; a manhã chega. A dor tem prazo de validade, mas a esperança em Cristo é permanente.

Reconhecer a realidade da provação é o primeiro passo. Vivemos em um mundo marcado pelo pecado, e por isso enfrentamos crises, perdas e enfermidades. O salmista confessa: “Muitas são as aflições do justo” (Salmo 34:19). Jó perdeu filhos, bens e saúde, mas declarou: “O Senhor o deu, o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21). A Bíblia não romantiza a dor, mas mostra que ela faz parte da jornada. O pecado rachou o chão da história, e onde há rachadura, há feridas. Mas aqui está o consolo: Deus é mais real que a dor. Ele não observa de longe; Ele se aproxima. Isaías 53:3 chama Jesus de “homem de dores, experimentado nos sofrimentos”. Ele chorou no túmulo de Lázaro, suou sangue no Getsêmani e carregou a cruz até o Calvário. Ele não minimiza a dor, Ele a redime.

A segunda verdade é que a provação é temporária. Paulo chama a tribulação de “leve e momentânea”. O sofrimento não é eterno. José foi vendido, traído e preso injustamente, mas a prisão não foi para sempre. O deserto de Israel durou quarenta anos, mas não era destino, era transição. O choro dura uma noite, mas a alegria vem pela manhã. A prova tem começo, meio e fim.

A terceira verdade é que a provação tem propósito. Deus não desperdiça dor. Jeremias 18 nos mostra o oleiro trabalhando o barro. Às vezes o vaso se quebra em suas mãos, mas o oleiro não desiste: ele refaz, reconstrói, dá nova forma. Assim é o Senhor conosco. Tiago 1:3-4 declara: “A prova da vossa fé produz perseverança.” A dor não é apenas um teste de paciência, mas um chamado ao arrependimento. Muitas das nossas lutas não vêm apenas das circunstâncias, mas do pecado. Romanos 6:23 afirma: “O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus.” O maior propósito da provação é nos levar a reconhecer nossa fragilidade e nossa necessidade de salvação.

E aqui chegamos ao ponto decisivo: perseverança na fé e esperança na salvação. Hebreus 10:23 nos exorta: “Guardemos firme a confissão da esperança, porque fiel é o que prometeu.” Perseverar é não soltar a mão de Deus, mesmo quando tudo parece desmoronar. Romanos 5:3-4 nos lembra que a tribulação produz perseverança, e a perseverança gera esperança. Mas sem Cristo, não há esperança verdadeira. O pecado nos condena, nos aprisiona e nos separa de Deus. A maior prova da humanidade não é a dor física, nem a crise financeira, nem a perda emocional. A maior prova é o pecado. E só Jesus pode vencê-la.

Por isso, perseverar na fé significa tomar uma decisão diante da cruz. Reconhecer que somos pecadores. Reconhecer que precisamos de perdão. Reconhecer que precisamos de uma nova vida ao lado de Cristo. 1 João 1:9 nos dá a promessa: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” O perdão não é teoria, é realidade. A salvação não é sonho, é oferta. A esperança não é ilusão, é certeza em Cristo.

A mensagem final é clara: essa prova vai passar. A dor é real, mas temporária. O propósito é moldar. A perseverança nos leva à esperança. Mas a maior decisão que você pode tomar não é apenas suportar a prova, mas entregar sua vida a Cristo. Sem Jesus, a prova do pecado nunca passa; ela se torna condenação eterna. Mas com Jesus, há perdão, há salvação, há vida nova.

Apocalipse 21:4 nos dá a promessa definitiva: “Deus enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor.” Essa é a esperança eterna. Essa é a vitória definitiva.

Hoje, Deus está chamando você. Não apenas para suportar a prova, mas para nascer de novo. Não apenas para resistir à dor, mas para receber a vida eterna. Não apenas para perseverar, mas para decidir: Cristo é meu Salvador.

Essa prova vai passar, mas a salvação em Cristo é eterna. O choro é breve, mas a vida em Jesus é para sempre.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Eficiência Não Basta: A Obra Missionária Precisa Ser Eficaz

Eficiência Não Basta: A Obra Missionária Precisa Ser Eficaz

Por Paulo Eduardo Martins

No campo missionário, duas palavras que parecem semelhantes podem revelar realidades completamente diferentes: eficiência e eficácia. Ambas são usadas em relatórios, reuniões e planejamentos, mas nem sempre são compreendidas à luz da missão que Jesus nos confiou. Eficiência é fazer bem feito. Eficácia é fazer o que realmente precisa ser feito.

Eficiência é quando as ações acontecem com organização, boa execução, ótimo uso de recursos, belas fotos e divulgação impecável. Tudo isso tem valor. Mas eficácia vai além: é quando o trabalho alcança o propósito final — vidas transformadas, salvação genuína, discipulado consistente e crescimento espiritual.

O problema dos nossos dias é que há muito trabalho eficiente, mas pouco trabalho eficaz. Há muito movimento, mas pouco fruto. Há muita exposição, mas pouca transformação. Há muitos projetos funcionando, mas poucos corações sendo alcançados. Vivemos um tempo em que é possível montar ações sociais bonitas, eventos atrativos e projetos bem apresentados — tudo com excelente eficiência. Mas se no final não houver arrependimento, conversão, discipulado e maturidade cristã, então, por mais organizado e bonito que o trabalho seja, ele não foi eficaz.

Essa reflexão é honesta e pessoal. Eu mesmo sou alguém que divulga, que compartilha fotos, vídeos e testemunhos — e faço isso com alegria, porque sei que mobiliza oração, aproxima os irmãos do campo e inspira fé. Mas, ao mesmo tempo, carrego um zelo profundo: não quero um ministério que faça muito movimento e pouca missão. Não quero que a obra se transforme em exposição sem essência.

Ao completar 22 anos no campo missionário, essa reflexão se torna ainda mais necessária. A missão não é sobre folhas, mas sobre frutos. Não é sobre quantidade de atividades, mas sobre qualidade de impacto. Não é sobre aparecer, mas sobre transformar.

A preocupação é real, porque a tentação de priorizar a eficiência — aquilo que aparece, que impressiona, que gera visibilidade — pode ser grande. Mas Cristo não nos chamou para sermos eficientes aos olhos dos homens, e sim eficazes aos olhos do Pai. Jesus não celebrou figueiras cheias de folhas. Ele procurou frutos (Marcos 11:13-14).

Eficiência produz movimento. Eficácia produz resultados espirituais. Eficiência preenche agenda. Eficácia transforma vidas. Eficiência atrai seguidores. Eficácia faz discípulos. Eficiência aparece nas redes. Eficácia aparece na eternidade.

A obra missionária precisa voltar urgentemente a esse ponto: o que estamos fazendo está produzindo fruto? Estamos sendo organizados ou transformadores? Estamos trabalhando para mostrar ou para salvar? Estamos focados em movimentar pessoas ou em formar discípulos? Organização é boa. Divulgação é importante. Projetos são necessários. Mas nada disso substitui o poder de uma vida alcançada, o processo de um discipulado fiel, a força de uma conversão sincera.

O ministério não pode se contentar em ser eficiente. Ele precisa ser eficaz. No fim da jornada, Deus não nos pedirá relatório das fotos tiradas, nem das publicações feitas, nem da amplitude dos nossos eventos. Ele nos perguntará sobre os frutos — frutos que permaneçam (João 15:16).

Menos brilho, mais profundidade. Menos movimento, mais transformação. Menos eficiência aparente, mais eficácia espiritual. A obra missionária só cumpre seu propósito quando gera resultados eternos, e não apenas impressões passageiras. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Fé em Ação: A Responsabilidade Social da Igreja

 

Fé em Ação: A Responsabilidade Social da Igreja


A fé cristã não pode ser reduzida a um conjunto de ideias ou declarações de crença. Ela precisa se tornar visível na forma como vivemos e nos relacionamos com o próximo. Quando a fé permanece apenas no campo da teoria, perde sua força transformadora e deixa de cumprir o propósito para o qual foi dada. O evangelho não é apenas uma mensagem para ser ouvida, mas uma realidade para ser praticada.

A responsabilidade social da igreja nasce justamente dessa compreensão. Não podemos separar nossa esperança futura da missão presente. A promessa da vida eterna não nos convida a fugir das dificuldades do mundo, mas nos chama a enfrentá-las com coragem e amor.

Na verdade, somos cidadãos de dois mundos. Pertencemos ao céu, mas também temos deveres na terra. Essa tensão não é um problema, mas uma riqueza da fé cristã: enquanto aguardamos a plenitude do Reino de Deus, somos chamados a viver de forma responsável no aqui e no agora. Como Paulo escreveu: “A nossa cidadania, porém, está nos céus” (Filipenses 3:20), mas isso não nos isenta de agir com responsabilidade e compaixão neste tempo presente. Nossa teologia sobre as coisas futuras não deve ser confundida com escapismo, mas entendida como motivação para servir e amar neste tempo presente.

A igreja primitiva nos dá um exemplo poderoso dessa vivência prática. Em Atos 2, vemos que os primeiros cristãos estavam unidos, partilhavam o que tinham e cuidavam uns dos outros. O texto afirma que “todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum... e caíam na graça de todo o povo” (Atos 2:44,47). A unidade e a solidariedade da comunidade eram tão visíveis que até os de fora reconheciam a beleza daquela fé em ação.

Isso significa que a fé verdadeira nos impulsiona a agir. Não basta acreditar em princípios espirituais; é necessário colocá-los em prática. Tiago nos lembra com firmeza: “Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tiago 2:17). A fé prática é aquela que se traduz em gestos concretos de amor, que não se limita ao discurso, mas se revela no cuidado com os necessitados.

A igreja é chamada a se envolver nas dores e necessidades da sociedade. Alimentar os famintos, acolher os desamparados, consolar os que sofrem e estender a mão aos mais vulneráveis não são apenas gestos de bondade, mas expressões concretas da fé que professamos. Jesus nos ensinou: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber” (Mateus 25:35).

A igreja, portanto, não pode ser vista apenas como um espaço de culto ou um prédio onde nos reunimos semanalmente. Ela é uma comunidade viva, formada por pessoas que compartilham a mesma fé e que se comprometem a viver essa fé em ações práticas. Campanhas de solidariedade, projetos sociais, visitas a enfermos, apoio a famílias em dificuldade, cuidado com os excluídos — tudo isso faz parte da missão que nos foi confiada. Cada iniciativa, por menor que pareça, carrega em si o poder de testemunhar o amor de Deus de forma palpável.

Quando a comunidade cristã se mobiliza para servir, ela constrói um testemunho que vai além das palavras. O mundo não precisa apenas ouvir sobre o amor de Cristo; ele precisa ver esse amor em ação. É nesse ponto que a fé se torna convincente, porque deixa de ser uma teoria distante e passa a ser uma realidade que transforma vidas.

Essa prática também fortalece a própria comunidade. Ao se envolver em ações sociais, os membros da igreja descobrem novos dons, aprendem a trabalhar em unidade e crescem espiritualmente. O serviço nos tira da zona de conforto e nos ensina a olhar para além de nossas próprias necessidades. Ele nos lembra que somos parte de algo maior, chamados a ser instrumentos de transformação em um mundo marcado por desigualdades e dores.

Assim, a responsabilidade social da igreja não é um detalhe secundário, mas parte essencial da missão cristã. Nossa teologia sobre o céu precisa se traduzir em serviço na terra. O evangelho que pregamos deve ser visível nas atitudes que tomamos. A fé que professamos deve ser reconhecida nas obras que realizamos. É dessa forma que mostramos ao mundo que seguimos um Deus que se fez humano para amar, servir e resgatar.

No fim, o que permanece não são apenas palavras ou declarações de fé, mas o impacto que deixamos na vida das pessoas. Quando a igreja se compromete com o serviço, ela se torna um sinal vivo do Reino de Deus. E é exatamente isso que o mundo espera de nós: uma fé que não se limita ao discurso, mas que se manifesta em ações concretas de amor e solidariedade.